| Padre Ernane (dir.) responde questões postas pelos integrantes da Comissão da Verdade |
Depoimento do Padre
Ernane Pinheiro, atual assessor da CNBB,
Coordenador de
Pastoral desta Arquidiocese à época
do trucidamento do
Padre Antonio Henrique
Pereira Neto,
na Comissão da Verdade
e da Memória Dom Helder Camara
– em 16 de agosto de
2012 - Sede da OAB - Pernambuco
Exmo. Sr Dr. Fernando Coelho, presidente da Comissão,
Exmo. Sr. Dr. Pedro Eurico, relator do caso Padre Henrique na
Comissão,
Demais membros da Comissão da Verdade e da Memória,
Meus Senhores e minhas Senhoras,
Meu depoimento perante esta significativa
Comissão é eclesial. No período, eu exercia o cargo de Vigário Episcopal dos
Leigos na Arquidiocese de Olinda Recife e como tal fui nomeado pelo arcebispo
Dom Helder Camara, na missa de corpo presente, o sucessor do padre Henrique
para dar continuidade aos trabalhos da Pastoral de juventude. Vou tentar
organizar minha reflexão em cinco partes:
1. Quem era o Padre
Henrique e como realizava o trabalho pastoral;
2. O contexto da Igreja
em Olinda e Recife no período;
3. O bárbaro trucidamento
do padre Antônio Henrique;
4. A morte do padre
Antonio Henrique e a Igreja de Olinda e Recife;
5. As repercussões do
trucidamento do padre e perguntas consequentes.
1. Quem era Padre Antônio Henrique Pereira
Neto e seu trabalho pastoral
Nasceu no Recife aos 28 de outubro de 1940. Fez sua formação
sacerdotal em Olinda, João Pessoa, com estudos de psicologia nos Estados
Unidos. Foi ordenado sacerdote aos 25/12/1965, poucos dias após o término do
Concílio Vaticano II.
Desde os tempos de Seminário, manifestava uma vocação para
trabalhar com a juventude. Vários grupos de secundaristas e universitários
recebiam sua orientação. Defendia Henrique uma proposta metodológica baseada no
seguinte princípio: o final do curso médio e o início do curso universitário é
um momento propício para ajudar os jovens a se encaminhar para a vida.
Padre Henrique já tinha a experiência da Juventude Estudantil
Católica (JEC); mas para melhor se preparar para sua missão, participava de
encontros de pastoral de juventude a nível regional, nacional e
latino-americano. Para fundamentar cada vez mais seus pressupostos apostólicos,
dedicava bastante tempo aos estudos, sobretudo das Sagradas Escrituras e da
Liturgia. Como responsável da Pastoral da Juventude da Arquidiocese reservava
suas tardes para atender os jovens que o procuravam para conversar, discutir
temas de interesse juvenil no próprio prédio do secretário arquidiocesano – o Juvenato
Dom Vital. Também atendia no Colégio Marista do Centro, em parceria com os
irmãos maristas no trabalho de formação dos jovens.
Solicitei ajuda para o meu depoimento a membros dos grupos
acompanhados pelo padre Henrique, perguntando: como funcionava a metodologia do
grupo e qual o papel do Padre Henrique no relacionamento com os jovens. Recebi
um depoimento esclarecedor, através de Lavínia Lins, após trocar ideias com
outros/as colegas[1]:
“...Éramos naquela época, amigos e conhecidos, (alguns
filhos de pais que eram amigos), que se encontravam para conversar,
“paquerar”, formar banda de música
(“conjunto”, na época), organizar quadrilhas no São João. Henrique (assim
gostava de ser chamado) havia aparecido por ali porque “um dos jovens estava
tendo problemas com os pais” e ele
intermediava diálogos entre eles. Os meninos então começaram a se encontrar com
ele (Henrique) com regularidade. As meninas souberam e se interessaram.
Passamos a nos reunir às 3ª feiras à noite, para conversas
(a “reunião”) e domingos à tarde para a missa e debates. Às vezes os pais iam e um diálogo entre
gerações era mediado por ele. Com cada um de nós Henrique estabelecia uma
relação pessoal, de intimidade e conhecimento. Chegou a aplicar alguns testes
psicológicos (como o desenho de árvore e da família) buscando aproximar-se,
saber mais sobre cada um de nós.
Sua postura era de aceitação (tão importante nesta idade)
e sua linguagem era a nossa. Era jovem também. Favorecia as relações e a
exposição sadia de cada um no grupo. Nossas vozes eram ouvidas e repercutiam.
Sentíamos pertencendo a algo que nós mesmos criávamos. Era com este sentimento
que estávamos sendo direcionados, de forma muito inteligente, a não nos
envolver com álcool e drogas e a repensar temas que nos cercavam, como: as
relações interpessoais, com outras gerações, temas sociais como a prostituição, etc.
Ao mesmo tempo nos oferecia a Igreja Católica, não apenas
na vivência dos encontros, mas através de uma missa descontraída, onde se
tocava violão e cantava. Cada etapa era explicada. A missa agora
era “prazerosa”. Um clima de informalidade e participação, incluindo as
nossas realidades na própria celebração. Tudo era muito real e próximo, assim
como as relações que se estabeleciam com amizades que duram até hoje, apesar da distância,
namoros que evoluíram para casamentos que se mantêm. Henrique nos mostrava uma forma nova de nos
relacionar conosco mesmos, com o outro, com o mundo”.
2.
O contexto da Igreja em Olinda e Recife no período
Padre Antonio Henrique assimilou com carinho
as perspectivas da Igreja do Concílio Vaticano, em clima de diálogo com o
mundo, em clima de ecumenismo. Era um jovem que vivia a primavera da Igreja em
renovação. E a nomeação inesperada de Dom Hélder para o Recife, exatamente
nesse período, lhe era providencial e tornou-se para o nosso jovem padre um
modelo a imitar e uma corresponsabilidade a exercer,
Dois
fatores significativos acentuavam a importância primordial da presença de Dom
Helder no Nordeste do Brasil no momento:
- O recente golpe militar de 31
de março de 1964;
- O Concílio Vaticano II em
pujante evolução na perspectiva de renovar a Igreja e melhor servir no mundo
atual (duas sessões tinham acontecido).
Diante do regime militar, eram já conhecidas suas
posições, tanto pela atuação na cidade do Rio de Janeiro como em nível nacional
- em defesa dos direitos dos pobres, da democracia e da liberdade de expressão.
Durante o Concílio Vaticano II, exercendo, no
período, a missão de Secretário Geral da Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil (CNBB) lhe foi oferecida a possibilidade de ser, em breve, missionário
do mundo, como peregrino da justiça e da paz, o que, de fato, aconteceu e o exerceu com maestria.
Um relacionamento especial de amizade ele
travou imediatamente durante o Concílio com os Bispos que tinham maior
sensibilidade para a problemática do então chamado “Terceiro Mundo”. Neste
contexto, surge o famoso grupo de Bispos, provenientes de todos os Continentes,
que se encontrava para refletir sobre a missão da Igreja junto aos pobres e a
necessidade da Igreja ser sinal do Cristo pobre.
Estes fatores históricos tornavam Dom Hélder
um homem de características excepcionais para assumir o pastoreio numa região
sofrida como o Nordeste, numa cidade cheia de contrastes sociais como o Recife,
num momento político específico.
Dom Helder
assumia o seu pastoreio a 12 dias do golpe militar de 1964. A cidade do Recife
era palco de numerosas prisões, exílios, por motivos políticos. O medo invadia a população. Havia um clima de
sobressalto. A cada momento poderia haver novas prisões, novos pichamentos...
Dom Hélder, logo na mensagem de chegada, abre
o coração aos seus diocesanos, procurando desarmar os espíritos. Fez uma saudação ao povo, ao seu povo, logo
ao chegar ao Recife, permeada de liberdade evangélica, embebida de sabor
profético – anúncio e denúncia, de teor missionário. Apresenta-se como o bispo
de todos ao explicitar sua postura pessoal e suas prioridades:
”Ninguém se escandalize quando me vir frequentando
criaturas tidas como indignas e pecadoras. Quem não é pecador? Quem pode jogar
a primeira pedra? Nosso Senhor, acusado de andar com publicanos e almoçar com
pecadores, respondeu que justamente os doentes é que precisam de médico.
Ninguém se espante me vendo com criaturas tidas como envolventes e perigosas,
da esquerda ou da direita, da situação ou da oposição, antirreformistas ou
reformistas, antirrevolucionárias ou revolucionárias, tidas como de boa ou de
má fé. Ninguém pretenda prender-me a um grupo, ligar-me a um partido, tendo
como amigos os seus amigos e querendo que eu adote as suas inimizades. Minha
porta e meu coração estarão abertos a todos, absolutamente a todos. Cristo
morreu por todos os homens: a ninguém devo excluir do diálogo fraterno”.
3. O bárbaro trucidamento
do Padre Antonio Henrique
Padre Antônio Henrique foi formado na escola do seu Pastor Dom
Helder. Também era fruto tanto da renovação da Igreja em pleno Concílio
Vaticano II como fruto do compromisso
com o mundo estudantil, ainda em ebulição, contra a ditadura militar. Henrique
tinha consciência de que corria risco. Estava comprometido com as causas dos
estudantes universitários, ainda muito politizados, e fazia seu trabalho
pastoral em sintonia com a dimensão profética da Arquidiocese com contínuas
denúncias contra as arbitrariedades da ditadura milita; isto o levava a viver
em contínua vigilância.
Seu bárbaro trucidamento aconteceu no dia 27 de maio de 1969. Na tarde do dia 26 de maio ainda recebeu
vários jovens no Juvenato. Por volta das 19 horas saiu para uma reunião no
bairro de Parnamirim, onde permaneceu com os jovens acompanhados dos seus pais,
até às 22,30 horas. Conforme depoimento do grupo de Lavínia Lins já citado,
após a última reunião Padre Henrique entrou num carro desconhecido:
“Nosso último encontro se deu para que os pais e os filhos
pudessem discutir tendo Henrique como
intermediador. O clima era agradável e seguro. Saí com meus pais e no Largo do
Parnamirim, avistei Henrique pela última vez. Passamos de carro e tentei acenar
para ele. Sem nos ver, entrava numa “rural”
verde e branca. Dois homens estavam fora do carro, de porta aberta,
junto com ele. Outro dirigia. Depois foi
apenas a notícia”.
Na manhã seguinte, as autoridades eclesiásticas foram advertidas
de que havia um corpo num capinzal ao lado da Universidade, reconhecido como o
corpo do padre Henrique. Fora transportado para o necrotério público onde Dom
Helder logo acorreu. Outros padres, inclusive Dom Basílio Penido, o abade do
mosteiro de São Bento, médico, também se aproximaram e aí permaneceram até a
conclusão da necropsia. O sacerdote tinha sido amarrado, arrastado, recebeu
três tiros na cabeça e algumas torturas; todos os golpes atingiram
exclusivamente a cabeça e o pescoço, conforme atesta o próprio Dom Basílio
Penido.
O corpo foi velado na matriz do Espinheiro, onde aconteceram duas
celebrações – uma às 21 horas do mesmo dia e outra na manhã seguinte antes de
partir para o cemitério. Nesse contexto, foi divulgada uma nota do Governo
Colegiado da Arquidiocese, expressando a dor da arquidiocese, o sofrimento dos
jovens em plena comoção, dos familiares perplexos.
Como a Igreja local não
dispunha de meios de comunicação viáveis para divulgar o acontecimento e a
imprensa local estava sob censura, o texto da Nota, após pronunciada, foi
mimeografado e distribuída pelas
paróquias, pelos colégios e universidades, fato que fez acorrer uma grande quantidade de pessoas para a celebração e, logo depois, para o enterro. A Nota foi redigida e
discutida com a participação de 40 padres, vários deles membros do Conselho
Presbiteral.
A Nota do Governo Colegiado
da Arquidiocese de Olinda e Recife[2]:
1.
Cumprimos o pesaroso dever de comunicar o bárbaro trucidamento do
padre Antônio Henrique Pereira Neto, cometido na noite anterior, 26 de maio,
nesta cidade do Recife;
2.
Aos 29 anos de idade e 3 anos de sacerdote, o padre Henrique
dedicou a vida ao apostolado da juventude, trabalhando sobretudo com os
universitários. Até às 22,30 horas de ontem, segundo o testemunho de um grupo
de casais, esteve reunido, em Parnamirim, com pais e filhos, na tentativa que
lhe era tão cara, de aproximar gerações;
3.
O que há de particularmente grave no presente crime, além dos
requintes de perversidade de que se reveste (a vítima foi amarrada, golpeada no
pescoço e recebeu três tiros na cabeça) é a certeza prática de que o atentado
brutal se prende a uma série pré-estabelecida e objeto de ameaças e avisos;
4.
Houve, primeiro, ameaças escritas em Edifícios, acompanhadas por
vezes, de disparos de armas de fogo. O Palácio de Manguinho recebeu numerosas
inscrições. A Sede do Secretariado Arquidiocesano e Regional nordeste II foi
alvejado. A residência do Arcebispo, na igreja das Fronteiras, alvejada e
pichada.
5.
Vieram, depois, ameaças telefônicas, com o anúncio de que já
estavam escolhidas as próximas vítimas. A primeira foi o estudante Cândido
Pinto de Melo, quartanista de engenharia, presidente da União dos Estudantes de
Pernambuco. Acha-se inutilizado, com a medula seccionada. A segunda foi um jovem
sacerdote, cujo crime exclusivo consistiu em exercer apostolado entre os
estudantes.
6.
Como cristãos, e a exemplo de Cristo e do proto-mártir Santo
Estevam, pedimos a Deus perdão para os assassinos, repetindo a palavra do
mestre: “Eles não sabem o que fazem”.
Mas julgamo-nos no direito e no dever de erguer um clamor para que
ao menos, não prossiga o trabalho sinistro deste novo esquadrão da morte.
7.
Que o holocausto do padre Antônio Henrique obtenha de Deus a graça
da continuação do trabalho pelo qual doou a vida e a conversão dos seus
algozes.
Recife, 27 de maio de 1969
+ Dom Helder, arcebispo de Olinda e Recife,
+Dom José Lamartine, Bispo Auxiliar e Vigário Geral,
Monsenhor Isnaldo Fonseca, Vigário Episcopal,
Monsenhor Arnaldo Cabral, Vigário Episcopal,
Mons Ernanne Pinheiro, Vigário Episcopal
O percurso da Igreja do
Espinheiro em direção ao cemitério, sobretudo na Avenida Caxangá, parecia um
campo de guerra. O cortejo fúnebre foi crescendo em população durante a
caminhada; contou com a presença de mais ou menos 8 mil pessoas. Também aconteceram alguns incidentes
desagradáveis. Invasão do cortejo por policiais para prender personalidades
como o deputado federal cassado Oswaldo Lima Filho presente ao enterro. Invasão
do cortejo para mandar tirar as faixas conduzidas pelas lideranças estudantis:
”Os militares mataram Padre Henrique”.
O enterro aconteceu no cemitério da Várzea, a pedido da família.
Ao lá chegar, o recinto estava totalmente cercado por forças militares, o que
impedia qualquer manifestação. Era plano dos estudantes expressarem sua
indignação juvenil diante do que eles estavam presenciando, o que Dom Helder
tinha evitado que acontecesse no interior da Igreja do Espinheiro.
Dom Helder acompanhou com muita unção todo o cortejo e foi
perspicaz em perceber o quadro à chegado do cemitério. Procurando evitar
possíveis confrontos, subiu numa cadeira, acenou para a população com um lenço
branco em sinal de paz, rezou um Pai Nosso com a população, deu uma benção e
solicitou que todos se retirassem em silêncio. Um silêncio piedoso, mas
extremamente gritante.
4. A morte do padre Antonio Henrique e a Igreja de Olinda e Recife
A missa de 7º. dia foi o
momento forte para a assimilação do trágico ocorrido.
A Arquidiocese, tentando
evitar fatos indesejáveis, preferiu descentralizar a celebração; preparou um
texto litúrgico unificado para orientação de todas as paróquias e centros
religiosos. Foi a ocasião para oferecer os critérios cristãos para avaliar o
trágico acontecimento. Sua introdução diz o seguinte:
“Meus irmãos, há sete dias precisamente Antônio Henrique,
presbítero da Igreja de Deus no Recife, foi trucidado por causa do Evangelho de
Jesus Cristo. Reunidos, hoje aqui, não são pensamentos de ódio ou de vingança,
não é a sede de mais sangue que nos movem e nos irmanam. São pensamentos de
paz. Paz que brota da fé. Fé que fala mais alto do que a perversidade dos maus.
Fé, que nos diz que padre Antonio Henrique está com Jesus, no Reino dos vivos.
Fé que nos faz apreciar a importância do seu holocausto e ouvir os apelos de
Deus a continuarmos o trabalho que padre
Henrique começou. Imploremos a misericórdia de Deus sobre todos nós, que
vivemos esta hora triste e angustiante; sobre a família do padre Henrique;
sobre o mundo que mata aqueles que lhe anunciam a verdadeira paz; sobre os
assassinos do padre Antonio Henrique”.
Na missa de 30º. dia, a homilia de Dom Helder amplia a reflexão
numa leitura religiosa do trágico acontecimento em sua relação com o momento
político.
Começou a Homilia com
uma pergunta:
“O que diria o nosso
Padre Henrique se Deus lhe permitisse que ele mesmo pregasse a homilia desta
Missa? Que ponderações teria a fazer, que sugestões a apresentar, falando-nos
de junto de Deus, onde nossa fé espera que ele se ache? Salvo engano, começaria
repetindo a palavra de Nosso Senhor, em sua paixão:”Não choreis sobre mim, mas
sobre vós e vossos filhos” (Lc 23,28)”.
E apresenta “Apelo que chega da
eternidade”:
- da eternidade, de
junto de Deus, ele apela para todos os que acusam a Igreja no Nordeste, de
subversão e comunismo. Comparem o que estamos pregando em nossa região com o
Ensino Social da Igreja, ainda recentemente expresso por Paulo VI em Genebra:
estamos rigorosamente dentro da “Populorum Progressio” e das conclusos de
Medellin;
- da eternidade, de
junto de Deus, ele pede aos Governantes que, sem perda de tempo, partam para a
reforma de base e, de modo particular, para a reforma agrária. Mas adverte que
será impossível qualquer mudança autêntica de estrutura através de reforma
conduzida de cima para baixo. Ou o Povo participa como agente de mudança, ou
não haverá promoção humana e social;
- da eternidade, de
junto de Deus, ele pede aos Responsáveis pela ordem pública que, quanto antes,
terminem as medidas de exceção que estão tornando impossível o uso de processos
democráticos da parte dos cidadãos em geral, e especialmente dos estudantes, e
dos trabalhadores. A situação presente cria clima propício a arbitrariedades, e
abusos, a crimes (e não seria difícil apontar casos, de que são tristes
exemplos os esquadrões da morte). A situação presente impele os mais
impacientes para a clandestinidade, a radicalização e a violência.
Estas afirmações do nosso Arcebispo Dom Helder Camara levam-nos a
considerar que a morte do padre Henrique, por motivações sócio-políticas, mas
com convicções cristãs sólidas, não era uma exceção na América Latina.
Estávamos rodeados de densa nuvem de testemunhos de fé (cf. carta aos Hebreus
12,1).
Nos anos das ditaduras na
América Latina foram publicadas muitas reflexões sobre o conceito de martírio,
valorizando os que tombaram numa luta pela democracia, em busca da justiça,
motivados pela fé, sabendo que poderiam pagar com a vida sua doação[3].
O padre jesuita Karl Rahner, considerado o grande teólogo do
século XX, fala sobre a necessidade de ampliação do conceito clássico de
martírio. Propõe que o termo martírio seja aplicado tanto para a morte
suportada pela fé como pela morte que tem sua origem num compromisso e numa
luta ativa, assumidos pela mesma fé[4].
5.
As repercussões do trucidamento do padre e perguntas consequentes
A Igreja local de Olinda e
Recife não ficou isolada nesse sofrido
momento. Recebeu solidariedades diversas e significativas do Brasil e do
exterior. Confortadora para todos, mas sobretudo para Dom Helder, foi a visita
imediata do Secretário Geral da CNBB,
Dom Aloísio Lorscheider.
Chegaram Mensagens do Santo
Padre Paulo VI, do Secretário de Estado do Vaticano, da Presidência do CELAM
(Conselho Episcopal Latino-americano), da Nunciatura Apostólica e tantas
outras.
O Governador do Estado, Sr. Nilo Coelho, nomeou uma Comissão de Inquérito e entregou
sua presidência ao Magistrado, juiz da 11ª. Vara, o Dr. Aloísio Xavier e para
desempenhar as funções de Procurador nomeou o Dr. Rorinildo da Rocha Leão.
Logo no dia 11.06.1969, o
Dr. Aloísio Xavier, segundo publicou o jornal Diário de Pernambuco, deu um
excelente testemunho em favor da conduta do sacerdote, afirmando com palavras
claras e incisivas que valeu como uma resposta a todas as insinuações veiculadas
por órgãos da imprensa.
Convidado a depor sobre o
assassinato do Padre Antônio Henrique,na Comissão Judiciária, em abril de 1975,
Dom Helder solicitou a anexação aos autos do processo sua declaração.
Ele relembra em detalhes os acontecimentos de maio de 1969, a nota do Governo
Colegiado da Arquidiocese, o caminhar da Comissão Judiciária, as fases do
processo e repete perguntas publicadas em Nota, no dia 29 de Agosto de 1969,
fazendo sérias considerações (importante de serem explicitadas mesmo se algumas
já atendidas).
Fala Dom Helder na sua declaração:
“Como esquecer a coincidência de, poucas horas
antes do que ocorreu a Cândido Melo, ter sido alvejado o Juvenato Dom Vital
(local em que trabalhava o padre Antonio Henrique), havendo os assaltantes – segundo
depoimento de duas testemunhas citadas no Relatório da Comissão Judiciária -
(parte final do item V), disparado suas armas, aos gritos de CCC? Como esquecer
que, segundo o mesmo Relatório, no mesmo item, foi o CCC quem ameaçou o Padre
Henrique pelo telefone?”
A nota continuava perguntando:
“Porque não se faz uma
devassa em regra sobre este famigerado CCC? Como e quando foi organizado? Quem
o financia e quem o dirige? Quem são os seus sócios? Onde tem sua sede? Quais
os objetivos e quais os feitos desta versão do Ku-Klux-Kan? Houve interesse
efetivo em apurar a passagem do CCC pela Universidade Rural? E pela
Universidade Católica? E pelos Diretórios Acadêmicos da Escola de Engenharia e
da antiga Faculdade de Filosofia, ambas da Universidade Federal de Pernambuco?
E pela residência do Arcebispo, duas vezes alvejada e objeto de inscrições com
ameaças? E pelo Palácio de Manguinho? Quais os resultados do Inquérito sobre o
alvejamento do Juvenato Dom Vital onde funcionam a Cúria Arquidiocesana e os
Secretariados Arquidiocesanos e do Regional da CNBB?”
Por que voltar ao caso neste momento?
A indignação ética dos brasileiros/as e, em especial, dos
pernambucanos/as, exige que fato como esse agora relatado seja conhecido,
refletido e avaliado para que nunca mais volte a acontecer no nosso país –
Nunca Mais.
Ao mesmo tempo, é sumamente importante as novas gerações
conhecerem seus verdadeiros heróis – os que deram a vida na busca de mais vida.
E numa leitura cristã, repetimos o que diziam os primeiros cristãos:
“O sangue dos mártires é semente de novos Cristãos”.
Está de parabéns a Comissão da Verdade e da Memória de Pernambuco!
Recife, 16 de agosto de 2012.
Padre José Ernanne Pinheiro,
Assessor da CNBB
[1] Lavínia Lins, hoje
médica psiquiatra em São Paulo, estava na reunião no bairro de
Parnamirim-Recife, de onde saiu o Padre Henrique, visto pela última vez.
[2] Todos os documentos aqui citados fazem
parte do arquivo da Arquidiocese de Olinda e Recife.
[3]
O caso do martírio do Padre Antonio
Henrique Pereira Neto está apresentado no livro: MARTÍRIO – memória perigosa
na América Latina hoje, do padre José Marins e sua equipe, Edições
Paulinas, 1984, página 146. No referido livro, padre Marins faz o levantamento
de situações idênticas a do Padre Henrique em quase todos os países da América
Latina; cita outros padres assassinados no Brasil: Padre
João Bosco Penido Burnier (1976), padre Rodolfo Lunkenbein(1976)...
[4]
Cf. Revista Internacional Concilium, n.183, 1983/3, páginas 13a16.
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