"O convite do Senhor Jesus «Ide vós também para a minha vinha» (Mt 20, 3-4) continua, desde esse longínquo dia, a fazer-se sentir ao longo da história [...] A chamada não diz respeito apenas aos Pastores, aos sacerdotes, aos religiosos e religiosas, mas estende-se aos fiéis leigos, pessoalmente chamados pelo Senhor, de quem recebem uma missão para a Igreja e para o mundo."
Exortação Apostólica Christifideles Laici, de S.S. João Paulo II

terça-feira, 28 de agosto de 2012

DEPOIMENTO SOBRE O PE. HENRIQUE NA COMISSÃO DA VERDADE

Padre Ernane (dir.) responde questões postas pelos integrantes da Comissão da Verdade

Depoimento do Padre Ernane Pinheiro, atual assessor da CNBB,
Coordenador de Pastoral desta Arquidiocese à época
do trucidamento do
Padre Antonio Henrique Pereira Neto,
na Comissão da Verdade e da Memória Dom Helder Camara
– em 16 de agosto de 2012 - Sede da OAB - Pernambuco

Exmo. Sr Dr. Fernando Coelho, presidente da Comissão,
Exmo. Sr. Dr. Pedro Eurico, relator do caso Padre Henrique na Comissão,
Demais membros da Comissão da Verdade e da Memória,
Meus Senhores e minhas Senhoras,

Meu depoimento perante esta significativa Comissão é eclesial. No período, eu exercia o cargo de Vigário Episcopal dos Leigos na Arquidiocese de Olinda Recife e como tal fui nomeado pelo arcebispo Dom Helder Camara, na missa de corpo presente, o sucessor do padre Henrique para dar continuidade aos trabalhos da Pastoral de juventude. Vou tentar organizar minha reflexão em cinco partes:
1.    Quem era o Padre Henrique e como realizava o trabalho pastoral;
2.   O contexto da Igreja em Olinda e Recife no período;
3.   O bárbaro trucidamento do padre Antônio Henrique;
4.   A morte do padre Antonio Henrique e a Igreja de Olinda e Recife;
5.   As repercussões do trucidamento do padre e perguntas consequentes.

1.        Quem era Padre Antônio Henrique Pereira Neto e seu trabalho pastoral

Nasceu no Recife aos 28 de outubro de 1940. Fez sua formação sacerdotal em Olinda, João Pessoa, com estudos de psicologia nos Estados Unidos. Foi ordenado sacerdote aos 25/12/1965, poucos dias após o término do Concílio Vaticano II.
Desde os tempos de Seminário, manifestava uma vocação para trabalhar com a juventude. Vários grupos de secundaristas e universitários recebiam sua orientação. Defendia Henrique uma proposta metodológica baseada no seguinte princípio: o final do curso médio e o início do curso universitário é um momento propício para ajudar os jovens a se encaminhar para a vida.
Padre Henrique já tinha a experiência da Juventude Estudantil Católica (JEC); mas para melhor se preparar para sua missão, participava de encontros de pastoral de juventude a nível regional, nacional e latino-americano. Para fundamentar cada vez mais seus pressupostos apostólicos, dedicava bastante tempo aos estudos, sobretudo das Sagradas Escrituras e da Liturgia. Como responsável da Pastoral da Juventude da Arquidiocese reservava suas tardes para atender os jovens que o procuravam para conversar, discutir temas de interesse juvenil no próprio prédio do secretário arquidiocesano – o Juvenato Dom Vital. Também atendia no Colégio Marista do Centro, em parceria com os irmãos maristas no trabalho de formação dos jovens.
Solicitei ajuda para o meu depoimento a membros dos grupos acompanhados pelo padre Henrique, perguntando: como funcionava a metodologia do grupo e qual o papel do Padre Henrique no relacionamento com os jovens. Recebi um depoimento esclarecedor, através de Lavínia Lins, após trocar ideias com outros/as colegas[1]:

“...Éramos naquela época, amigos e conhecidos, (alguns filhos de pais que eram amigos), que se encontravam para conversar, “paquerar”,  formar banda de música (“conjunto”, na época), organizar quadrilhas no São João. Henrique (assim gostava de ser chamado) havia aparecido por ali porque “um dos jovens estava tendo problemas com os pais”  e ele intermediava diálogos entre eles. Os meninos então começaram a se encontrar com ele (Henrique) com regularidade. As meninas souberam e se interessaram.
Passamos a nos reunir às 3ª feiras à noite, para conversas (a “reunião”) e domingos à tarde para a missa e debates.  Às vezes os pais iam e um diálogo entre gerações era mediado por ele. Com cada um de nós Henrique estabelecia uma relação pessoal, de intimidade e conhecimento. Chegou a aplicar alguns testes psicológicos (como o desenho de árvore e da família) buscando aproximar-se, saber mais sobre cada um de nós.
Sua postura era de aceitação (tão importante nesta idade) e sua linguagem era a nossa. Era jovem também. Favorecia as relações e a exposição sadia de cada um no grupo. Nossas vozes eram ouvidas e repercutiam. Sentíamos pertencendo a algo que nós mesmos criávamos. Era com este sentimento que estávamos sendo direcionados, de forma muito inteligente, a não nos envolver com álcool e drogas e a repensar temas que nos cercavam, como: as relações interpessoais, com outras gerações, temas sociais como  a prostituição, etc.
Ao mesmo tempo nos oferecia a Igreja Católica, não apenas na vivência dos encontros, mas através de uma missa descontraída, onde se tocava violão e cantava. Cada etapa era explicada. A missa  agora  era “prazerosa”. Um clima de informalidade e participação, incluindo as nossas realidades na própria celebração. Tudo era muito real e próximo, assim como as relações que se estabeleciam com amizades  que duram até hoje, apesar da distância, namoros que evoluíram para casamentos que se mantêm.  Henrique nos mostrava uma forma nova de nos relacionar conosco mesmos, com o outro, com o mundo”.

        2.   O contexto da Igreja em Olinda e Recife  no período

Padre Antonio Henrique assimilou com carinho as perspectivas da Igreja do Concílio Vaticano, em clima de diálogo com o mundo, em clima de ecumenismo. Era um jovem que vivia a primavera da Igreja em renovação. E a nomeação inesperada de Dom Hélder para o Recife, exatamente nesse período, lhe era providencial e tornou-se para o nosso jovem padre um modelo a imitar e uma corresponsabilidade a exercer,
 Dois fatores significativos acentuavam a importância primordial da presença de Dom Helder no Nordeste do Brasil no momento:
    -    O recente golpe militar de 31 de março de 1964;
    -   O Concílio Vaticano II em pujante evolução na perspectiva de renovar a Igreja e melhor servir no mundo atual (duas sessões tinham acontecido).
Diante do regime militar, eram já conhecidas suas posições, tanto pela atuação na cidade do Rio de Janeiro como em nível nacional - em defesa dos direitos dos pobres, da democracia e da liberdade de expressão.
Durante o Concílio Vaticano II, exercendo, no período, a missão de Secretário Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lhe foi oferecida a possibilidade de ser, em breve, missionário do mundo, como peregrino da justiça e da paz, o que,  de fato, aconteceu e o exerceu com maestria.
Um relacionamento especial de amizade ele travou imediatamente durante o Concílio com os Bispos que tinham maior sensibilidade para a problemática do então chamado “Terceiro Mundo”. Neste contexto, surge o famoso grupo de Bispos, provenientes de todos os Continentes, que se encontrava para refletir sobre a missão da Igreja junto aos pobres e a necessidade da Igreja ser sinal do Cristo pobre.
Estes fatores históricos tornavam Dom Hélder um homem de características excepcionais para assumir o pastoreio numa região sofrida como o Nordeste, numa cidade cheia de contrastes sociais como o Recife, num momento político específico.
Dom Helder  assumia o seu pastoreio a 12 dias do golpe militar de 1964. A cidade do Recife era palco de numerosas prisões, exílios, por motivos políticos. O  medo invadia a população. Havia um clima de sobressalto. A cada momento poderia haver novas prisões, novos pichamentos...
Dom Hélder, logo na mensagem de chegada, abre o coração aos seus diocesanos, procurando desarmar os espíritos.  Fez uma saudação ao povo, ao seu povo, logo ao chegar ao Recife, permeada de liberdade evangélica, embebida de sabor profético – anúncio e denúncia, de teor missionário. Apresenta-se como o bispo de todos ao explicitar sua postura pessoal e suas prioridades:
”Ninguém se escandalize quando me vir frequentando criaturas tidas como indignas e pecadoras. Quem não é pecador? Quem pode jogar a primeira pedra? Nosso Senhor, acusado de andar com publicanos e almoçar com pecadores, respondeu que justamente os doentes é que precisam de médico. Ninguém se espante me vendo com criaturas tidas como envolventes e perigosas, da esquerda ou da direita, da situação ou da oposição, antirreformistas ou reformistas, antirrevolucionárias ou revolucionárias, tidas como de boa ou de má fé. Ninguém pretenda prender-me a um grupo, ligar-me a um partido, tendo como amigos os seus amigos e querendo que eu adote as suas inimizades. Minha porta e meu coração estarão abertos a todos, absolutamente a todos. Cristo morreu por todos os homens: a ninguém devo excluir do diálogo fraterno”.

3.     O bárbaro trucidamento do Padre Antonio Henrique

Padre Antônio Henrique foi formado na escola do seu Pastor Dom Helder. Também era fruto tanto da renovação da Igreja em pleno Concílio Vaticano II como  fruto do compromisso com o mundo estudantil, ainda em ebulição, contra a ditadura militar. Henrique tinha consciência de que corria risco. Estava comprometido com as causas dos estudantes universitários, ainda muito politizados, e fazia seu trabalho pastoral em sintonia com a dimensão profética da Arquidiocese com contínuas denúncias contra as arbitrariedades da ditadura milita; isto o levava a viver em contínua vigilância.
Seu bárbaro trucidamento aconteceu no dia 27 de maio de 1969.  Na tarde do dia 26 de maio ainda recebeu vários jovens no Juvenato. Por volta das 19 horas saiu para uma reunião no bairro de Parnamirim, onde permaneceu com os jovens acompanhados dos seus pais, até às 22,30 horas. Conforme depoimento do grupo de Lavínia Lins já citado, após a última reunião Padre Henrique entrou num carro desconhecido:

“Nosso último encontro se deu para que os pais e os filhos pudessem discutir tendo Henrique  como intermediador. O clima era agradável e seguro. Saí com meus pais e no Largo do Parnamirim, avistei Henrique pela última vez. Passamos de carro e tentei acenar para ele. Sem nos ver, entrava numa “rural”  verde e branca. Dois homens estavam fora do carro, de porta aberta, junto com ele. Outro dirigia. Depois  foi apenas a notícia”.

Na manhã seguinte, as autoridades eclesiásticas foram advertidas de que havia um corpo num capinzal ao lado da Universidade, reconhecido como o corpo do padre Henrique. Fora transportado para o necrotério público onde Dom Helder logo acorreu. Outros padres, inclusive Dom Basílio Penido, o abade do mosteiro de São Bento, médico, também se aproximaram e aí permaneceram até a conclusão da necropsia. O sacerdote tinha sido amarrado, arrastado, recebeu três tiros na cabeça e algumas torturas; todos os golpes atingiram exclusivamente a cabeça e o pescoço, conforme atesta o próprio Dom Basílio Penido.
O corpo foi velado na matriz do Espinheiro, onde aconteceram duas celebrações – uma às 21 horas do mesmo dia e outra na manhã seguinte antes de partir para o cemitério. Nesse contexto, foi divulgada uma nota do Governo Colegiado da Arquidiocese, expressando a dor da arquidiocese, o sofrimento dos jovens em plena comoção, dos familiares perplexos.
 Como a Igreja local não dispunha de meios de comunicação viáveis para divulgar o acontecimento e a imprensa local estava sob censura, o texto da Nota, após pronunciada, foi mimeografado e  distribuída pelas paróquias, pelos colégios e universidades, fato que fez acorrer uma  grande quantidade de pessoas  para a celebração e, logo depois,  para o enterro. A Nota foi redigida e discutida com a participação de 40 padres, vários deles membros do Conselho Presbiteral.

 A Nota do Governo Colegiado da Arquidiocese de Olinda e Recife[2]:

1.         Cumprimos o pesaroso dever de comunicar o bárbaro trucidamento do padre Antônio Henrique Pereira Neto, cometido na noite anterior, 26 de maio, nesta cidade do Recife;
2.        Aos 29 anos de idade e 3 anos de sacerdote, o padre Henrique dedicou a vida ao apostolado da juventude, trabalhando sobretudo com os universitários. Até às 22,30 horas de ontem, segundo o testemunho de um grupo de casais, esteve reunido, em Parnamirim, com pais e filhos, na tentativa que lhe era tão cara, de aproximar gerações;
3.        O que há de particularmente grave no presente crime, além dos requintes de perversidade de que se reveste (a vítima foi amarrada, golpeada no pescoço e recebeu três tiros na cabeça) é a certeza prática de que o atentado brutal se prende a uma série pré-estabelecida e objeto de ameaças e avisos;
4.        Houve, primeiro, ameaças escritas em Edifícios, acompanhadas por vezes, de disparos de armas de fogo. O Palácio de Manguinho recebeu numerosas inscrições. A Sede do Secretariado Arquidiocesano e Regional nordeste II foi alvejado. A residência do Arcebispo, na igreja das Fronteiras, alvejada e pichada.
5.        Vieram, depois, ameaças telefônicas, com o anúncio de que já estavam escolhidas as próximas vítimas. A primeira foi o estudante Cândido Pinto de Melo, quartanista de engenharia, presidente da União dos Estudantes de Pernambuco. Acha-se inutilizado, com a medula seccionada. A segunda foi um jovem sacerdote, cujo crime exclusivo consistiu em exercer apostolado entre os estudantes.
6.        Como cristãos, e a exemplo de Cristo e do proto-mártir Santo Estevam, pedimos a Deus perdão para os assassinos, repetindo a palavra do mestre: “Eles não sabem o que fazem”.
Mas julgamo-nos no direito e no dever de erguer um clamor para que ao menos, não prossiga o trabalho sinistro deste novo esquadrão da morte.
7.        Que o holocausto do padre Antônio Henrique obtenha de Deus a graça da continuação do trabalho pelo qual doou a vida e a conversão dos seus algozes.
Recife, 27 de maio de 1969
+ Dom Helder, arcebispo de Olinda e Recife,
+Dom José Lamartine, Bispo Auxiliar e Vigário Geral,
Monsenhor Isnaldo Fonseca, Vigário Episcopal,
Monsenhor Arnaldo Cabral, Vigário Episcopal,
Mons Ernanne Pinheiro, Vigário Episcopal

 O percurso da Igreja do Espinheiro em direção ao cemitério, sobretudo na Avenida Caxangá, parecia um campo de guerra. O cortejo fúnebre foi crescendo em população durante a caminhada; contou com a presença de mais ou menos 8 mil pessoas.  Também aconteceram alguns incidentes desagradáveis. Invasão do cortejo por policiais para prender personalidades como o deputado federal cassado Oswaldo Lima Filho presente ao enterro. Invasão do cortejo para mandar tirar as faixas conduzidas pelas lideranças estudantis: ”Os militares mataram Padre Henrique”.
O enterro aconteceu no cemitério da Várzea, a pedido da família. Ao lá chegar, o recinto estava totalmente cercado por forças militares, o que impedia qualquer manifestação. Era plano dos estudantes expressarem sua indignação juvenil diante do que eles estavam presenciando, o que Dom Helder tinha evitado que acontecesse no interior da Igreja do Espinheiro.
Dom Helder acompanhou com muita unção todo o cortejo e foi perspicaz em perceber o quadro à chegado do cemitério. Procurando evitar possíveis confrontos, subiu numa cadeira, acenou para a população com um lenço branco em sinal de paz, rezou um Pai Nosso com a população, deu uma benção e solicitou que todos se retirassem em silêncio. Um silêncio piedoso, mas extremamente gritante.
 
 4.  A morte do padre Antonio Henrique  e a Igreja de Olinda e Recife

 A missa de 7º. dia foi o momento forte para a assimilação do trágico ocorrido.
 A Arquidiocese, tentando evitar fatos indesejáveis, preferiu descentralizar a celebração; preparou um texto litúrgico unificado para orientação de todas as paróquias e centros religiosos. Foi a ocasião para oferecer os critérios cristãos para avaliar o trágico acontecimento. Sua introdução diz o seguinte:
“Meus irmãos, há sete dias precisamente Antônio Henrique, presbítero da Igreja de Deus no Recife, foi trucidado por causa do Evangelho de Jesus Cristo. Reunidos, hoje aqui, não são pensamentos de ódio ou de vingança, não é a sede de mais sangue que nos movem e nos irmanam. São pensamentos de paz. Paz que brota da fé. Fé que fala mais alto do que a perversidade dos maus. Fé, que nos diz que padre Antonio Henrique está com Jesus, no Reino dos vivos. Fé que nos faz apreciar a importância do seu holocausto e ouvir os apelos de Deus a continuarmos o trabalho que  padre Henrique começou. Imploremos a misericórdia de Deus sobre todos nós, que vivemos esta hora triste e angustiante; sobre a família do padre Henrique; sobre o mundo que mata aqueles que lhe anunciam a verdadeira paz; sobre os assassinos do padre Antonio Henrique”.
Na missa de 30º. dia, a homilia de Dom Helder amplia a reflexão numa leitura religiosa do trágico acontecimento em sua relação com o momento político.
Começou a Homilia com uma  pergunta:
“O que diria o nosso Padre Henrique se Deus lhe permitisse que ele mesmo pregasse a homilia desta Missa? Que ponderações teria a fazer, que sugestões a apresentar, falando-nos de junto de Deus, onde nossa fé espera que ele se ache? Salvo engano, começaria repetindo a palavra de Nosso Senhor, em sua paixão:”Não choreis sobre mim, mas sobre vós e vossos filhos” (Lc 23,28)”.
      E apresenta “Apelo que chega da eternidade”:
- da eternidade, de junto de Deus, ele apela para todos os que acusam a Igreja no Nordeste, de subversão e comunismo. Comparem o que estamos pregando em nossa região com o Ensino Social da Igreja, ainda recentemente expresso por Paulo VI em Genebra: estamos rigorosamente dentro da “Populorum Progressio” e das conclusos de Medellin;
- da eternidade, de junto de Deus, ele pede aos Governantes que, sem perda de tempo, partam para a reforma de base e, de modo particular, para a reforma agrária. Mas adverte que será impossível qualquer mudança autêntica de estrutura através de reforma conduzida de cima para baixo. Ou o Povo participa como agente de mudança, ou não haverá promoção humana e social;
- da eternidade, de junto de Deus, ele pede aos Responsáveis pela ordem pública que, quanto antes, terminem as medidas de exceção que estão tornando impossível o uso de processos democráticos da parte dos cidadãos em geral, e especialmente dos estudantes, e dos trabalhadores. A situação presente cria clima propício a arbitrariedades, e abusos, a crimes (e não seria difícil apontar casos, de que são tristes exemplos os esquadrões da morte). A situação presente impele os mais impacientes para a clandestinidade, a radicalização e a violência.

Estas afirmações do nosso Arcebispo Dom Helder Camara levam-nos a considerar que a morte do padre Henrique, por motivações sócio-políticas, mas com convicções cristãs sólidas, não era uma exceção na América Latina. Estávamos rodeados de densa nuvem de testemunhos de fé (cf. carta aos Hebreus 12,1).
 Nos anos das ditaduras na América Latina foram publicadas muitas reflexões sobre o conceito de martírio, valorizando os que tombaram numa luta pela democracia, em busca da justiça, motivados pela fé, sabendo que poderiam pagar com a vida sua doação[3].
O padre jesuita Karl Rahner, considerado o grande teólogo do século XX, fala sobre a necessidade de ampliação do conceito clássico de martírio. Propõe que o termo martírio seja aplicado tanto para a morte suportada pela fé como pela morte que tem sua origem num compromisso e numa luta ativa, assumidos pela mesma fé[4].

5.    As repercussões do trucidamento do padre  e perguntas consequentes

  A Igreja local de Olinda e Recife não ficou isolada nesse sofrido  momento. Recebeu solidariedades diversas e significativas do Brasil e do exterior. Confortadora para todos, mas sobretudo para Dom Helder, foi a visita imediata  do Secretário Geral da CNBB, Dom Aloísio Lorscheider.
 Chegaram Mensagens do Santo Padre Paulo VI, do Secretário de Estado do Vaticano, da Presidência do CELAM (Conselho Episcopal Latino-americano), da Nunciatura Apostólica e tantas outras.
O Governador do Estado, Sr. Nilo Coelho,  nomeou uma Comissão de Inquérito e entregou sua presidência ao Magistrado, juiz da 11ª. Vara, o Dr. Aloísio Xavier e para desempenhar as funções de Procurador nomeou o Dr. Rorinildo da Rocha Leão.
  Logo no dia 11.06.1969, o Dr. Aloísio Xavier, segundo publicou o jornal Diário de Pernambuco, deu um excelente testemunho em favor da conduta do sacerdote, afirmando com palavras claras e incisivas que valeu como uma resposta a todas as insinuações veiculadas por órgãos da imprensa.
  Convidado a depor sobre o assassinato do Padre Antônio Henrique,na Comissão Judiciária, em abril de 1975, Dom Helder solicitou a anexação aos autos do processo sua declaração.
Ele relembra em detalhes os acontecimentos de maio de 1969, a nota do Governo Colegiado da Arquidiocese, o caminhar da Comissão Judiciária, as fases do processo e repete perguntas publicadas em Nota, no dia 29 de Agosto de 1969, fazendo sérias considerações (importante de serem explicitadas mesmo se algumas já atendidas).
Fala Dom Helder na sua declaração:
 “Como esquecer a coincidência de, poucas horas antes do que ocorreu a Cândido Melo, ter sido alvejado o Juvenato Dom Vital (local em que trabalhava o padre Antonio Henrique), havendo os assaltantes – segundo depoimento de duas testemunhas citadas no Relatório da Comissão Judiciária - (parte final do item V), disparado suas armas, aos gritos de CCC? Como esquecer que, segundo o mesmo Relatório, no mesmo item, foi o CCC quem ameaçou o Padre Henrique pelo telefone?”
 A nota continuava perguntando:
“Porque não se faz uma devassa em regra sobre este famigerado CCC? Como e quando foi organizado? Quem o financia e quem o dirige? Quem são os seus sócios? Onde tem sua sede? Quais os objetivos e quais os feitos desta versão do Ku-Klux-Kan? Houve interesse efetivo em apurar a passagem do CCC pela Universidade Rural? E pela Universidade Católica? E pelos Diretórios Acadêmicos da Escola de Engenharia e da antiga Faculdade de Filosofia, ambas da Universidade Federal de Pernambuco? E pela residência do Arcebispo, duas vezes alvejada e objeto de inscrições com ameaças? E pelo Palácio de Manguinho? Quais os resultados do Inquérito sobre o alvejamento do Juvenato Dom Vital onde funcionam a Cúria Arquidiocesana e os Secretariados Arquidiocesanos e do Regional da CNBB?”
           
  Por que voltar ao caso neste momento?
             
A indignação ética dos brasileiros/as e, em especial, dos pernambucanos/as, exige que fato como esse agora relatado seja conhecido, refletido e avaliado para que nunca mais volte a acontecer no nosso país – Nunca Mais.
Ao mesmo tempo, é sumamente importante as novas gerações conhecerem seus verdadeiros heróis – os que deram a vida na busca de mais vida.
E numa leitura cristã, repetimos o que diziam os primeiros cristãos: “O sangue dos mártires é semente de novos Cristãos”.
Está de parabéns a Comissão da Verdade e da Memória de Pernambuco!

Recife, 16 de agosto de 2012.
Padre José Ernanne Pinheiro,
 Assessor da CNBB



[1] Lavínia Lins, hoje médica psiquiatra em São Paulo, estava na reunião no bairro de Parnamirim-Recife, de onde saiu o Padre Henrique, visto pela última vez.
[2] Todos os documentos aqui citados fazem parte do arquivo da Arquidiocese de Olinda e Recife.
[3] O caso do martírio do Padre Antonio Henrique Pereira Neto está apresentado no livro: MARTÍRIO – memória perigosa na América Latina hoje, do padre José Marins e sua equipe, Edições Paulinas, 1984, página 146. No referido livro, padre Marins faz o levantamento de situações idênticas a do Padre Henrique em quase todos os países da América Latina;  cita  outros padres assassinados no Brasil: Padre João Bosco Penido Burnier (1976), padre Rodolfo Lunkenbein(1976)...
[4] Cf.  Revista Internacional Concilium, n.183, 1983/3, páginas 13a16.

PARTILHANDO O EVANGELHO


Evangelho - Jo 6,60-69
4º domingo, 26 de agosto de 2012
21º Domingo do Tempo Comum - ANO B -
Naquele tempo:
60 muitos dos discípulos de Jesus
que o escutaram, disseram:
'Esta palavra é dura.
Quem consegue escutá-la?'
61 Sabendo que seus discípulos estavam murmurando
por causa disso mesmo,
Jesus perguntou:
'Isto vos escandaliza?
62 E quando virdes o Filho do Homem
subindo para onde estava antes?
63 O Espírito é que dá vida,
a carne não adianta nada.
As palavras que vos falei são espírito e vida.
64 Mas entre vós há alguns que não crêem'.
Jesus sabia, desde o início,
quem eram os que não tinham fé
e quem havia de entregá-lo.
65 E acrescentou:
'É por isso que vos disse:
ninguém pode vir a mim
a não ser que lhe seja concedido pelo Pai'.
66 A partir daquele momento,
muitos discípulos voltaram atrás
e não andavam mais com ele.
67 Então, Jesus disse aos doze:
'Vós também vos quereis ir embora?'
68 Simão Pedro respondeu:
'A quem iremos, Senhor?
Tu tens palavras de vida eterna.
69 Nós cremos firmemente e reconhecemos
que tu és o Santo de Deus'.
Palavra da Salvação.

Comentário do Prof. João Luiz Correia Junior
Professor da UNICAP e membro da Comissão

Neste domingo, temos mais uma perícope (trecho com sentido completo) do Evangelho segundo João. Quero destacar a frase que está no versículo 63: As palavras que vos falei são espírito e vida”.
“Espírito e vida” estão interligados porque, na tradição bíblica, “espírito” significa “sopro de Deus”, algo que emana do poder divino com força capaz de recriar e criar coisas novas... Trata-se de um potencial gerador de múltiplas formas de vida...
No Evangelho segundo João, as palavras de Jesus devem ser compreendidas assim, provenientes do próprio Deus. São “espírito e vida” porque restauraram vidas e geram novas vidas. São palavras provenientes do espírito divino.
Não é à toa que Pedro reconhece: “Tu tens palavras de vida eterna”. Esta vida que a palavra de Jesus proclama é proveniente da essência do próprio Deus, o Eterno.
Tal como Pedro, por conta de nossas vulnerabilidades humanas, tenhamos a sabedoria de dizer: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna”.
Assim seja!  

PARTILHANDO O EVANGELHO


Evangelho - Lc 1,39-56

3º Domingo, 19 de agosto de 2012
20º Dom. TC – Solenidade da Assunção da Virgem Maria

39 Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa,
dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judéia
.
40 Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel.
41 Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
a criança pulou no seu ventre
e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.
42 Com um grande grito, exclamou:
"Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre!"
43 Como posso merecer
que a mãe do meu Senhor me venha visitar?
44 Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos,
a criança pulou de alegria no meu ventre.
45 Bem-aventurada aquela que acreditou,
porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu".
46 Maria disse:
"A minha alma engrandece o Senhor,
47 e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador,
48 pois, ele viu a pequenez de sua serva,
eis que agora as gerações hão de chamar-me de bendita.
49 O Poderoso fez por mim maravilhas
e Santo é o seu nome!
50 Seu amor, de geração em geração,
chega a todos que o respeitam.
51 Demonstrou o poder de seu braço,
dispersou os orgulhosos.
52 Derrubou os poderosos de seus tronos
e os humildes exaltou.
53 De bens saciou os famintos
despediu, sem nada, os ricos.
54 Acolheu Israel, seu servidor,
fiel ao seu amor,
55 como havia prometido aos nossos pais,
em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre".
56 Maria ficou três meses com Isabel;
depois voltou para casa
.
Palavra da Salvação.

Comentario do prof. João Luiz Correia Junior – Professor de Bíblia da UNICAP e membro da Comissão

O que encanta neste Evangelho (que coloco em negrito na abertura e conclusão do texto acima) é algo cotidiano, tornado invisível pela cultura androcêntrica em que vivemos: o papel social da mulher nas relações genuinamente humanas de solidariedade, companheirismo, apoio mútuo, amor real que passa pelo cuidado com o outro no dia-a-dia.
De fato, na cultura androcêntrica, em que o homem (sexo masculino) foi colocado no centro como protagonista (aquele que tem o principal papel) nas relações socioeconômicas, sociopolíticas e socioculturais (inclusive religiosa), a mulher foi tornada invisível. Seu importante papel na sociedade fica num plano tão inferior que nem é notado.
Na época de Jesus, ela estava basicamente circunscrita à esfera familiar e da vizinhança comunitária mais próxima. Hoje, além de continuar exercendo importante papel de protagonista nesta esfera privada, a mulher se apresenta com enorme competência nas demais esferas públicas, antigamente demarcadas como atividade circunscrita aos homens.
Maria, mãe de Jesus, no texto acima de Lucas, ensaia estas primeiras iniciativas da mulher, ao sair de casa para ajudar sua prima Isabel. Mesmo que ainda esteja circunscrita ao ambiente familiar, não resta dúvida que ela rompe com as quatro paredes de sua casa para, apressadamente, dirigir-se a uma outra região (montanhosa) e colocar-se disponível na diakonia, serviço solidário em prol de quem precisa... Esse é o papel social mais importante da fé cristã, ensinado por Jesus. Trata-se da demonstração visível do amor a Deus.
Agradeçamos a Maria este seu testemunho de vida e sigamos seu exemplo de valorizar a solidariedade, tanto no ambiente particular, privado, familiar, quanto na esfera pública do trabalho, da Igreja, da política, etc.

PARTILHANDO O EVANGELHO


PARTILHA DA PALAVRA
Evangelho - Jo 6,41-51
2º Domingo de Agosto de 2012

Naquele tempo: 41 Os judeus começaram a murmurara respeito de Jesus, porque havia dito:'Eu sou o pão que desceu do céu'. 42 Eles comentavam:'Não é este Jesus, o filho de José?Não conhecemos seu pai e sua mãe?Como então pode dizer que desceu do céu?'Jesus respondeu:
'Não murmureis entre vós. 44 Ninguém pode vir a mim,se o Pai que me enviou não o atrai.E eu o ressuscitarei no último dia. 45 Está escrito nos Profetas:`Todos serão discípulos de Deus.'Ora, todo aquele que escutou o Paie por ele foi instruído, vem a mim. 46 Não que alguém já tenha visto o Pai.Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai. 47 Em verdade, em verdade vos digo,quem crê, possui a vida eterna. 48 Eu sou o pão da vida. 49 Os vossos pais comeram o maná no desertoe, no entanto, morreram. 50 Eis aqui o pão que desce do céu:quem dele comer, nunca morrerá. 51 Eu sou o pão vivo descido do céu.Quem comer deste pão viverá eternamente.E o pão que eu dareié a minha carne dada para a vida do mundo'.Palavra da Salvação.



COMENTÁRIO PELO PROF. JOÃO LUIZ CORREIA JUNIOR
 - Professor de Bíblia da Unicap e membro da Comissão

Não é fácil encarar críticas do tipo que Jesus teve de enfrentar ao longo de sua missão. Suas palavras não estavam sendo bem compreendidas e eram até deturpadas porque, de algum modo, a atuação de Jesus questionava a falta de compromisso e dedicação das pessoas que deveriam cuidar do povo e não o faziam, porque estavam empenhadas em cuidar da própria vida, aproveitando-se inclusive da situação de miséria das multidões excluídas...
Jesus dedicou a sua missão a serviço das pessoas empobrecidas que viviam nas pequenas cidades e aldeias. Ele liderou um movimento sociorreligioso itinerante que percorreu a Galileia, anunciando a chegada definitiva de um novo tempo, em que Deus finalmente iria reinar, tempo em que todos viveriam com dignidade e direitos iguais.  
Já era possível vislumbrar a chegada desse novo tempo, por meio do que Jesus fazia e ensinava a fazer, a partir de sua compaixão misericordiosa.  
A ação missionária de Jesus, que logo atraiu discípulos e discípulas, tinha como eixo os seus ensinamentos com autoridade e a sua prática solidária, sobretudo para com as pessoas mais necessitadas de ajuda imediata.
Essa prática de Jesus era como um maná no deserto, como o pão que desceu do céu, justamente quando mais as pessoas estavam precisando. Para quem faz a experiência de viver conforme os ensinamentos de Jesus ele é, sem dúvida, “o pão vivo descido do céu”.
Fica a lição de que, seguir Jesus é também se tornar pão que sacia a fome das pessoas, naquilo que sabemos e podemos fazer concretamente em prol da vida delas.
Acho importante aproveitarmos bem nossos talentos (inclusive em nosso campo de atividade profissional), prestando um serviço bem feito, com generosidade e prazer, com o intuito unicamente de servir a quem precisa do nosso trabalho.
[Para quem deseja conhecer mais sobre Jesus, sugiro o excelente livro JESUS, HEBREU DA GALILEIA: PESQUISA HISTÓRICA, de Giuseppe Barbaglio, das Paulinas. Tem 673 páginas].